Cristianismo cresce entre as classes menos favorecidas da Índia e já influencia outros setores da sociedade.


Cristianismo cresce entre as classes menos favorecidas da Índia e já influencia outros setores da sociedade.

Shivamma está descalça; seu sári é simples e seu corpo, esquelético. Sua casa foi construída dentro de um tubo de captação de água pluvial, descartado pela fábrica onde ela e o marido trabalham. A vizinhança, escondida num enorme pátio arborizado, é composta por canos imensos, perfilados como se fossem traillers. A família da Shivamma, composta por quatro pessoas, vive na Índia. Apesar de ela ser oriunda da casta dalit, sua vida melhorou depois que ela abraçou a fé cristã. Ela veio morar na vila de tubos como uma jovem noiva, buscando escapar da miséria de sua vila natal. Shivamma e seu marido ganham o equivalente a US$ 5 dólares (uns 8 reais) por dia. Por três anos, ela permaneceu estéril – até que um jovem cristão, chamado Bangarraju, veio à sua casa orar por ela: “Eu não sabia porque ele tinha vindo ou para quem ele orava”, lembra a mulher. “Pensei que Jesus fosse um dos deuses”. Ela concebeu, dando à luz a um filho e, depois, a uma segunda criança, uma menina. Quando sua filha tinha três meses de idade, ficou muito doente. Bangarraju veio, orou novamente, e a garota foi curada. “Dei-me conta de que Jesus era o Deus verdadeiro”, diz Shivamma. A conversão mudou a rotina da pobre família. “Costumávamos beber e todos os dias tínhamos brigas terríveis. Jesus Cristo trouxe paz à nossa casa. Não tenho mais medo porque conheço o verdadeiro Deus e confio nele”, declara.

É provável que Shivamma não tenha noção disso, mas pessoas como ela são a cara da nova Índia cristã. Potência emergente e um dos principais pólos de atração de investimentos internacionais, opaís, de mais de 1 bilhão de habitantes, tem visto surgiremcomunidades cristãs vibrantes e crescentes. Elas são parte de umaIgreja totalmente nacional, contextualizada com a cultura local efruto de evangelismo autóctone. A recém-criada Índia cristã éencontrada na camada mais baixa da sociedade, em meio ahomens e mulheres como Shivamma, pobres e analfabetos. Elespensam de uma forma inimaginável para seus ancestrais e muitosestão seguindo a Cristo, fato inédito na história do país. Ser um dalit é muito pior do que ser pobre, pois não importa quantaeducação ou patrimônio acumule, o indivíduo permanece impuro.Eles são cerca de 150 milhões de pessoas, e, como os leprososbíblicos, exceto pelo fato de que, conforme a cultura indianadominante, não podem ser curados. Contudo, muito emboradescenda de gerações de pessoas acostumadas a se curvar e a resignar-se com a invisibilidade social, Shivamma não se humilha mais.

Bangarraju também é um dalit. Missionário e fundador de igrejas, ele começou a alcançar a vila dos tubos em 1996. Ensinava crianças analfabetas numa escola informal, que se reunia debaixo de uma árvore. Além disso, o obreiro organizava visitas médicas, com o apoio da missão que o sustenta, a Operação Mobilização. Durante o seu primeiro ano de visitas à vila, Bangarraju nada disse sobre Jesus. Agora, uma grande parcela da vila de tubos segue a Cristo. Com o passar dos anos, o missionário fez mais do que pregar o Evangelho: ele ensinou Shivamma e seu marido a disciplina necessária para economizar dinheiro. Como resultado, o casal conseguiu comprar uma casa em sua vila natal. Considerando o futuro próximo, Shivamma está feliz morando em seu tubo, sem ter de pagar aluguel. Ainda assim, ela tem sonhos maiores para seus filhos: a educação que nem ela ou seu marido receberam. Por isso, está decidida a fazer com que as crianças aprendam inglês e saiam da vila de tubos. “Não queremos que eles sofram como nós sofremos”, resume.

OPORTUNIDADES

A igreja da Índia cresce de maneira vertiginosa. Hoje ,cerca de 70milhões de indianos declaram-se evangélicos, segundo dados damissão Operação Mundial. Tal número, se verdadeiro, a colocaria entre as oito maiores populações cristãs do mundo, logo atrás de Filipinas e Nigéria, e maior do que em nações de forte tradição protestante, como Alemanha ou Reino Unido. Só que, diferentemente dos irmãos de fé em outros países, os crentes daÍndia vivem num contexto espiritual bem próprio e hostil – o panteão hindu tem quase 300 milhões de deuses e há grupos religiosos extremistas atuando no país. Quando fundamentalistas hindus venceram as eleições nacionais em 1998, trouxeram com eles um hinduísmo radical que fomentou perseguição aos cristãos e leis contrárias à conversão. O evangelismo público tornou-se praticamente impossível. Missionários indianos, então, deixaram as pregações e reuniões nas ruas, estabelecendo-se e em lugares específicos com o intuito de abrir escolas, oferecer desenvolvimento econômico e treinamento, bem como implantar igrejas domésticas. Dez anos depois, na região de Orissa, confrontos religiosos deixarammais de mil cristãos mortos e aldeias inteiramente destruídas. Grupos radicais de orientação hinduísta, maoísta e muçulmana costumam perseguir as comunidades cristãs, muitas vezes com a complacência das autoridades.

Mesmo assim, oportunidades para espalhar as boas novas do Evangelho parecem estar em todo lugar. Outra organização missionária, a Operação Mundial contabiliza 2.223 grupos ainda não evangelizados na Índia, cinco vezes mais do que na China, a segunda nação menos alcançada do mundo. “Índia, Afeganistão e Paquistão formam a maior concentração da humanidade não alcançada do mundo”, afirma Jason Mandryk, ligado à entidade. Contudo, por toda a vasta nação, relatos sobre conversões a Cristo se sucedem. A Operação Mobilização, uma das maiores agências missionárias que atuam no país, cresceu a ponto de abranger 3 mil congregações, das quais trezentas surgiram na última década. Certo ministério, com base em um hospital no norte da Índia, testemunhou 8 mil batismos ao longo dos últimos cinco anos, após um longo período de poucos resultados na pregação. As detalhadas estatísticas da agência missionária mostram que a Igreja cristã está crescendo a uma taxa três vezes maior do que a população hindu da Índia.

“Isso é algo novo nos últimos dez anos, especialmente no norte da Índia”, avalia Todd Johnson, diretor do Centro para o Estudo do Cristianismo Global do Seminário Teológico Gordon-Conwell. Ele adota estatísticas mais modestas em relação à quantidade de cristãos no país. O Atlas do Cristianismo Global, editado pelo centro, estima que eles seriam perto de 60 milhões. A diferença, contudo, pode ser explicada pela metodologia de contagem. É que muita gente está frequentando comunidades religiosas independentes e outros, embora convertidos ao Evangelho, não revelam abertamente sua condição, devido ao temor de represálias e supressão de direitos familiares ou sociais.  O censo indiano de 2001 colocou os cristãos como representando um pouco mais do que 2% da população do país. Contudo, atualmente a Operação Mundial estima esse número próximo de 6%, e aponta que pesquisadores cristãos na Índia encontram resultados ainda maiores, alcançando nove por cento. “Inúmeros cristãos indianos dizem que portas fechadas por séculos estão se abrindo”, destaca Johnson.

Em uma nação com território de proporções continentais e habitada por centenas de grupos étnicos, é difícil ter certeza sobre essas tendências. As estatísticas sobre religião são poucas, e os relatórios de organizações missionárias podem refletir apenas condições locais. Mesmo assim, a mudança no panorama religioso na índia é perceptível. “Situações animadoras estão acontecendo. Isso é real”, comemora Johnson. “Nossa metodologia é esperar para ver e fazer nosso melhor para identificar esse movimento. Porém, o que está ocorrendo é notável. Todo mundo concorda com isso”. Mandryk lembra que os resultados mais notáveis são observados justamente na base da pirâmide social. “Todos sabem sobre o incrível reavivamento entre os dalits. Esse foi o maior crescimento nos últimos anos”, comenta. Contudo, a influência já se faz sentir em outros setores da sociedade.  “Agora, vemos sinais de crescimento entre as castas médias e entre aquelas pessoas com menos de 35 anos. Existe uma nova dinâmica em curso entre a geração urbana e educada, e também nas castas mais altas.”

Embora as taxas de crescimento da Igreja não tenham atingido o mesmo nível daquelas observadas na China, durante o pico das décadas de 1970 e 80, Mandryk acredita que ele pode ser acelerado.  “Está ocorrendo uma mudança de marcha e o movimento começa a ganhar velocidade. A diversidade de castas, regiões e contextos é um fator importante. O crescimento da igreja não está mais restrito aos miseráveis.”

“MENSAGEM DE LIBERTAÇÃO”

Inquiestionavelmente, a Índia está no meio de rápidas mudanças econômicas e sociais. Essas mudanças contribuem para quebrar tradições religiosas, especialmente o sistema indiano de castas. “O hinduísmo é uma ferramenta para nos oprimir”, diz T.V. Joy, um plantador de igrejas no norte da Índia: “E o Evangelho é uma mensagem de libertação, não apenas para o céu. Ele tem palavras de liberdade. A verdade é que Deus fez o homem à sua imagem”. Essa verdade, afirma Joy, enfraquece as concepções tradicionais sobre as castas. Entre 70% e 90% dos cristãos na Índia são dalits. Quando se convertem, eles reforçam a imagem do cristianismo como uma religião digna de desprezo por parte dos demais grupos – como os brâmanes, a elite religiosa, e os militares, proprietários rurais e trabalhadores, que ocupam as outras castas. Embora o governo, oficialmente, tenha suprimido esse sistema social, a discriminação também existe entre os cristãos. “Na teoria, sermos todos um em Cristo está correto, porém na prática isso não é verdade”, atesta diz Y. Moses, uma ativista dalit.

A maioria dos cristãos indianos afirma que suas igrejas enfrentam grandes desafios.  Materialismo, discriminação, disputas entre as lideranças e uma fé desinteressada são males evidentes. Porém, quando instados sobre a razão de os indianos estarem indo a Cristo em números impressionantes, líderes apontam o trabalho do Espírito Santo. Então, eles mencionam fatores críticos que enfraquecem crenças hindus tradicionais, deixando os indianos mais abertos à mudanças. Um deles é o crescimento urbano. Na Índia, 43 cidades têm mais de um milhão de habitantes, e grandes aglomerados como Calcutá, Mumbai e Nova Déli, passam de dez milhões. As cidades apresentam grande fluidez social – pessoas de todas as classes se misturam e as castas se tornam menos importantes. O preconceito permanece, porém é mais sutil, e assim pessoas menos favorecidas podem ascender socialmente.

Outro aspecto favorável é a ênfase cristã na educação. Agências missionárias têm montado projetos de formação profissional, ensino médio e de inglês, inclusive nas vilas rurais. O setor de serviços também está crescendo rapidamente. Um pastor cristão no norte da Índia, por exemplo, forma técnicos em manutenção de aparelhos de ar-condicionado. E os formados, praticamente todos oriundos das castas mais baixas, conseguem empregos nas novas empresas, mais interessadas na eficiência do que na origem social dos funcionários. “Os missionários democratizaram a educação”, diz o advogado dalit A. Maria. De fato, muitas das melhores escolas da Índia são instituições cristãs privadas fundadas por missionários, algumas remanescentes do período colonial britânico. Como era de se esperar, estudantes abastados (e, consequentemente, de castas mais prestigiadas) procuram essas escolas, tendo contato com um outro tipo de abordagem religiosa.

A consolidação da democracia, por outro lado, também mostra a crescente influência cristã. O pleito parlamentar de 2009 registrou um recorde de 60% de comparecimento às urnas entre os mais de 700 milhões de eleitores. Algumas regiões cristãs testemunharam uma enorme frequência. Por exemplo, Nagaland, no nordeste da Índia, que concentra uma alta taxa de cristãos, registrou um recorde de 90% de comparecimento. O ingresso de obreiros no país também está mais fácil. A Índia havia parado de conceder vistos a missionários vindos do exterior nos anos 1950. Isso aniquilou escolas e hospitais cristãos, que dependiam de capacitação estrangeira. Contudo, gradualmente, o número de agências missionárias indianas tem crescido. Em 1971, havia menos de 20 delas; hoje existem, no mínimo, duzentas. A Operação Mundial conta com mais de 80 mil missionários indianos, a maioria servindo em um ambiente transcultural.

“Deus nos chamou para plantar igrejas”, diz Alfy Franks, da Operação Mobilização. No entanto, a instalação de novas congregações cristãs, em geral, é combinada com outras atividades, como fornecimento de microcrédito, educação e assistência médica. Na Índia, a veneração a uma infinidade de deuses e o ambiente favorece o misticismo – portanto, uma abordagem puramente espiritual não passa necessariamente a mensagem certa. Por meio do desenvolvimento comunitário, os missionários indianos demonstram que Jesus é mais do que apenas mais um deus a ser adorado. Ele é o Senhor que transforma vidas. Para os indianos que sofrem com a opressão espiritual ou com a pobreza – sem dúvida, indianos de todas as castas –, essa mensagem de transformação fala poderosamente.

Por Tim Stafford

Fonte: http://www.cristianismohoje.com.br/materia.php?k=823

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